26 de Agosto de 2008

No meu tempo

Eu sou do tempo em que as rosas tinham cheiro e os trevos, quatro folhas. Quando eu nasci, os meus pais não sabiam o meu sexo e usava fraldas de pano. Cresci na rua, com as mãos cheias de terra e os joelhos com nódoas negras. Quando queria falar com os meus amigos berrava-lhes da janela da minha casa, ou esperava que eles chegassem à escola, no dia seguinte. Nas aulas, o professor sabia mais do que eu, e isso não era problema para mim. Aprendi a tabuada e a calcular a raiz quadrada num papel. No meu tempo, tinha uma semanada de 500 escudos que durava até ás gomas de sexta-feira e estava longe de imaginar que ia passar a vida a dividir Euros por dois. Existiam drogarias, mercearias e vendedores ambulantes que tinham na sua caixa todos os cromos que faltavam nas minhas cadernetas. Escreviam-se cartas de amor e as meninas não diziam que sim à primeira. No meu tempo, o Verão durava três meses, estava Sol todos os dias e não se podia levar pipocas para o cinema. O ano tinha quatro estações e eu sabia quando tinha de vestir um casaco ou usar uma t-shirt. No meu tempo, tudo o que eu sabia das raparigas era que não serviam para jogar à bola nem gostavam de andar à porrada. Todos os dias me deitava ás 22h e aos fins-de-semana levantava-me ás 6h da manhã, para ver os desenhos animados que duravam até ás 13h. Ainda sou do tempo em que os presentes de Natal só se abriam no dia 25 de manhã e em que o Pai Natal era vermelho. Ia à catequese ao sábado de tarde e à missa ao domingo de manhã, embora não gostasse muito. Cresci sem saber o que é um telemóvel, um Big Mac, um shopping, um computador e a Internet.

O que é que fizeram ao mundo nos últimos 10 anos?
Escrito por Suspeito em 16:02:07 | Link permanente | Comments (0) |

10 de Fevereiro de 2008

O Drama, A Tragédia, O Horror

Pois é, hoje sofri um choque do qual não sei quando nem como irei recuperar. Os mais sensíveis podem parar de ler agora... Apenas os mais corajosos, ou aqueles que, como eu, têm mais curiosidade do que medo, podem continuar. Mas advirto que estão por vossa conta e risco. O responsável por este blog, assim como quem gere o servidor, não se responsabilizam por eventuais danos causados pelas letras aqui transcritas, nem tão pouco se dão indeminizações, porque o dono deste blog é pobre. Posto isto, e considerando-vos avisados, cá vai:


O QUITOSO VAI DEIXAR DE SER COMERCIALIZADO!

Espero não ter sido muito brusco com as palavras, mas dar más notícias nunca foi o meu forte. Mas sim, é mesmo verdade. O mítico remédio dos piolhos e outros males que atacam as zonas capilares (superiores e inferiores) vai acabar para sempre. E "porquê mundo cruel???", perguntam vocês... Pois eu respondo. A razão pela qual vão matar este icone da nossa infância é porque, imaginem só, o quitoso viola os direitos dos bichinhos. Parece que o Quitoso assassinava brutalmente os bichos por envenenamento. Por isso, as associações de defesa dos direitos dos animais deram um murro na mesa e disseram "Basta!". Então substituindo o Quitoso, foi lançado um novo fármaco completamente diferente. Este, mata piolhos e chatos por asfixia! Aposto que eles se sentem muito melhor ao deixar este mundo! Envenenamento não! É cruel! Asfixia? Porque não? Para se perceber melhor de que bichos eu estou aqui a falar, deixo-vos uma foto com um pequeno exemplo que, mais uma vez, é por vossa conta e risco visualizar:

Aviso: Conteúdo explícito! Não abrir!

Para chegarem até esta linha, é porque são uns valentes, cá dos meus, por isso merecem ver uma foto tirada ao quitoso, dos tempos em que ele não fazia ideia de que ia ser assim brutalmente assassinado. Mas carreguem no link, apenas se partilharem a minha dor:

Amigo Quitoso, até sempre!

Hoje, o mundo está mais pobre. Aos poucos vão-nos tirando as memórias. Querem-nos mudar à força. Primeiro, acabaram com o Dartagnan, e substituiram-no por um pulguento de quatro patas com o nariz vermelho. Depois, acabaram com o Dragon Ball e puseram a pipi das meias altas com mamas de silicone em horário nobre. Agora o quitoso... Que mais virá a seguir?

Escrito por Suspeito em 17:34:42 | Link permanente | Comments (3) |

02 de Fevereiro de 2008

Resoluções de Ano Novo e o Regime Nazi

Hoje caiu-me o queixo, enquanto calmamente no café lia o meu jornal (sim comecei a frequentar cafés desde 1 de Janeiro deste mesmo ano, desde que os não-fumadores assumiram o poder). Então não é que a menina Juliane Ziegler, um encanto de menina por sinal, foi despedida depois de ter dito Arbeit Macht Frei num programa em directo (daqueles que a menina Liliana Aguiar faz por cá).



Para quem ainda está a pensar "Mas que raio é que o gajo tá para aqui a dizer? Ele num costumava por só parvoeiras escritas já entoldado com dois copos? Notícias? Arbeit Macht Frei?" Sim é verdade, este blog costumava ser parvo, assim como quem o escreve, mas isso era nos bons velhos tempos de 2007. Agora não. Estamos em 2008, e toda a gente merece um "fresh start", inclusivé este blog, parvo e cinzento. Faz parte das resoluções de ano novo, tornar este espaço num espaço de cultura e eleição, não podendo ser parvo mais do que uma vez por mês (ok, duas, nos meses mais dificeis).

Anyway, voltando ao nosso assunto, Arbeit Macht Frei era a inscrição gravada por cima da entrada dos campos de concentração Nazis, durante a Segunda Guerra Mundial, que quer dizer nada mais nada menos que um irónico "O trabalho liberta". Eu não queria estar na pele dos alemães, porque se há povo com telhados de vidro é aquele. Vivem com o constante receio de que algures no mundo, alguém ainda se lembre daquele grande líder nacionalista, que em tempos elevou bem alto a grande nação alemã... Tão alto, que quando caiu partiu-se toda aos bocadinhos a que, para não ficarem sem nome, se deu o nome de Europa. Mas será que ainda fará sentido a legislação alemã proibir certas e determinadas expressões, alusivas ao regime nazi? Não estarão assim a perpetuar a herança infeliz que o Sr. Adolf deixou (não posso dizer Hitler, porque se o administrador do www.blog.com for alemão, ainda despede o meu cantinho, e isso sim era uma tragédia)? Tenham juízo e dêm emprego à menina.

Heil Juliane Ziegler, o povo está contigo.
Escrito por Suspeito em 14:19:56 | Link permanente | Comments (3) |

27 de Dezembro de 2007

Saco de Gomas



Leves dias,
Intensas magias...
Brotam suaves aromas
De um saco de gomas

***

Enquanto o meu cansaço
Se acalma no teu abraço,
A noite cai sozinha,
Numa rua que não é minha.

***

Eu não sei escrever
Mas tu não sabes ler
Somos felizes, calados
Nesta concha, fechados

***

O livro que escreveste
Só tem uma página.
A fotocopia que me deste,
Diz que é aqui que termina.
Escrito por Suspeito em 15:26:01 | Link permanente | Comments (2) |

14 de Dezembro de 2007

Beijo


Este Natal quero
um beijo verdadeiro, daqueles com sabor e cheiro, sem pressa de acabar.
Não quero um beijo rouco, daqueles que sabem a pouco, tímidos e de lingua escondida, com a saliva quase esquecida, sem nariz no final.
Quero um beijo sincero, que me queira tanto como eu o quero, com a força de um animal.
Não quero um beijo mortal, porque o meu beijo tem de ser eterno, mesmo que eu vá para o inferno!
Quero um beijo provocante, durante dias a fio, que me sirva de calmante, neste mundo sombrio.
Não quero um beijo carnal, sem um sentimento verdadeiro... Não quero mais ser banal, em vez de amar por inteiro!
Quero um beijo egoista, como numa página de revista ou nas folhas dos jornais... Quero um beijo daqueles que não se esquecem nunca mais!
Escrito por Suspeito em 18:40:46 | Link permanente | Comments (5) |

06 de Dezembro de 2007

Inverno



Já passou tanto tempo desde a última vez que escrevi, que já nem me lembro como se começa. Parece-me que acabei de o fazer, embora não tenha escrito nada de jeito ainda, e por este andar não é hoje que começo. Olhei pela janela e fiquei com frio. Detesto dias assim, molhados cinzentos e frios. O vento provoca-me lá de fora. Ele sabe que eu tenho de ir trabalhar. Está só à espera do momento certo para me atirar com o primeiro aguaceiro da noite. Também sei que logo à noite, depois de cinco horas a fingir que trabalho, no tão ansiado regresso a casa, o nevoeiro me vai tapar os olhos durante todo o caminho, sem deixar que o carro passe os 50km/h, só para me atrasar mais um bocadinho para dar tempo ao vento de reunir mais umas quantas nuvens para me atirar. Por fim vou chegar a casa, de volta ao marasmo deste canto de onde vos escrevo, e vou olhar de novo por esta janela e desejar nunca ter saído. Depois, vou-me deitar chateado com a vida, com o tempo, com o Inverno e com quem inventou os kispos. Não suporto dias como o hoje. Nem os kispos! Se amanhã estiver assim, não me acordem!
Escrito por Suspeito em 18:12:07 | Link permanente | Comments (2) |

10 de Outubro de 2007

Saudades & Afinidades

Na corrida do regresso a casa, passo pela placa que diz Lisboa. Ainda hoje, tal como ontem e nos dias anteriores, imaginei como seria se em vez de virar para casa, fosse sempre em frente. Tinha cerca de 300km para pensar em ti, mas não seria tempo suficiente para recordar os últimos anos, e tudo o que já dissemos um ao outro. Quando penso num reencontro, imagino sempre uma estação de comboios. Centenas de pessoas a sair, inúmeras caras desconhecidas e de repente há uma que se destaca de todas as outras, como se te tivessem pintado a guache, e ao resto da multidão a lápis de cor. Passem os anos que passarem, vou-te reconhecer sempre, não por estares sempre na mesma, porque não estás, mas pela cambalhota que o estômago dá quando os nossos olhares se cruzam. Essa sim é sempre a mesma, porque o que sentimos nunca mudou. Não fazes parte da minha vida, e eu também não faço parte da tua, mas um dia vais ser tripeira por afinidade e eu lisboeta por simpatia, para podermos entrar na mesma porta ao fim do dia. Vamos ter o nosso pedaço de paraíso no Alentejo, com os animais que quiseres levar. Mas por agora só nos resta sonhar que esse dia chegue depressa, porque já me cansei de virar á direita na placa que tem o teu nome. Amanhã vou em frente.

Escrito por Suspeito em 21:30:09 | Link permanente | Comments (4) |

29 de Setembro de 2007

Chocolate com Batatas


Olá Daniela Feliz, daqui fala o João Luís! Como tem passado?
Sim, o tempo está enublado. Vamos tomar café? Sim, eu sei que não gostas e eu também não, mas, porque não? Vamos fingir que somos vizinhos. Eu sei que não gostas de fingir, mas só um bocadinho não faz mal. Os nossos vícios fazem pior. Dois dedos chegam para os contar. Um chocolate e uma batata frita fazem-nos suspirar. Vamos então ser vizinhos! Não precisamos de muito, só de um lugar abrigado. Só tenho de ser o teu vizinho de frente, e tu a vizinha do lado. Está bem eu páro de fingir, não somos vizinhos, nem tão pouco da mesma cidade, mas o que eu adoro em ti é a tua afinidade, com a mui nobre e invicta bondade que nos permitiu aproximar e tomar este café sedutor, para nunca deixar o destino levar a melhor.
Escrito por Suspeito em 20:36:23 | Link permanente | Comments (2) |

23 de Setembro de 2007

História do menino que queria ser um Ás de Copas

 
 
Esta é a história do menino que queria ser um Ás de Copas. O menino não gostava de ser menino, porque não era feliz, num mundo em que toda a gente jogava ás cartas. Diziam que o menino não jogava com o baralho todo, por causa da sua adoração pelos ases, em especial pelo de copas. Em todos os jogos em que entrava, ele roubava todos os ases do baralho. De seguida, rasgava todos e deixava apenas o Ás de Copas. Ninguém gostava do menino por ele não saber jogar. O menino via a cara de felicidade de toda a gente quando o baralho lhes dava um ás, em especial se fosse de copas. O menino só queria que alguém ficasse assim tão feliz quando olhasse para ele, como quando olham para um Ás de Copas. Em pouco tempo não haviam mais ases no mundo e toda a gente deixou de jogar. O menino pensava que assim que ele tivesse todos os Ases, as pessoas iam ficar felizes quando olhassem para ele, pois ele representaria toda a felicidade do mundo das cartas. Mas não, porque com a ânsia do menino querer ser feliz, nunca mais ninguém jogou ás cartas, no mundo em que toda a gente jogava ás cartas. Perante isto, o menino desejou nunca ter roubado a felicidade, em vez de a conquistar. Ficou furioso e passou toda a noite a baralhar-se no meio de todos aqueles ases, até ao ponto em que deixou de se ver o menino no meio de tantas cartas.
Até hoje, ninguém sabe o que lhe aconteceu, mas sempre que no mundo das cartas, sai o Ás de Copas, toda a gente se lembra do menino e acredita que ele estará dentro do coração de um daqueles ases, feliz por trazer a felicidade ao jogo.
Escrito por Suspeito em 17:58:53 | Link permanente | Comments (1) |

21 de Setembro de 2007

Doente

 

Ontem acordei. É bom sinal, acordar. E se acordamos, não pode ser assim tão grave, pensei eu. Como não me mexi logo, pensei que era só uma constipação. O nariz, já não o uso desde ontem. Não faz falta, ainda bem que tenho boca, pensei eu de novo. Eu gosto de ficar a pensar na cama, mal acordo. E se acordei e consigo raciocinar, não pode ser assim tão grave, pensei eu. Porém, mal me mexi, apercebi-me que era grave. Estava num estado como se tivesse dormido numa máquina de lavar roupa toda a noite. Tonto e dorido. Se fosse mesmo verdade, ao menos estava lavado. Mas não. Ainda tinha que ir tomar banho. A dificil tarefa de tomar banho com dores no corpo. A roupa que não quer sair, e o frio que me corta a alma ás fatias, quando a roupa finalmente sai. Passaram-se vinte minutos que me pareceram duas horas. Quando, a muito custo, me sento no sofá para tirar a febre, o primeiro susto do dia. 36,5º. Como toda a gente sabe, isto não é febre nenhuma. Nem a uns míseros 37º tive direito. Conclusão: fui trabalhar na mesma. Quando resolverem ficar doentes, certifiquem-se que têm gripe. Os mimos são melhores e o termómetro deixa-vos ficar em casa. Hoje vou dormir para a varanda, a ver se a febre aparece. Não gosto das coisas pela metade, nem de trabalhar à segunda-feira. 

Escrito por Suspeito em 20:11:26 | Link permanente | Comments (2) |