No meu tempo
O que é que fizeram ao mundo nos últimos 10 anos?



Na corrida do regresso a casa, passo pela placa que diz Lisboa. Ainda hoje, tal como ontem e nos dias anteriores, imaginei como seria se em vez de virar para casa, fosse sempre em frente. Tinha cerca de 300km para pensar em ti, mas não seria tempo suficiente para recordar os últimos anos, e tudo o que já dissemos um ao outro. Quando penso num reencontro, imagino sempre uma estação de comboios. Centenas de pessoas a sair, inúmeras caras desconhecidas e de repente há uma que se destaca de todas as outras, como se te tivessem pintado a guache, e ao resto da multidão a lápis de cor. Passem os anos que passarem, vou-te reconhecer sempre, não por estares sempre na mesma, porque não estás, mas pela cambalhota que o estômago dá quando os nossos olhares se cruzam. Essa sim é sempre a mesma, porque o que sentimos nunca mudou. Não fazes parte da minha vida, e eu também não faço parte da tua, mas um dia vais ser tripeira por afinidade e eu lisboeta por simpatia, para podermos entrar na mesma porta ao fim do dia. Vamos ter o nosso pedaço de paraíso no Alentejo, com os animais que quiseres levar. Mas por agora só nos resta sonhar que esse dia chegue depressa, porque já me cansei de virar á direita na placa que tem o teu nome. Amanhã vou em frente.



Ontem acordei. É bom sinal, acordar. E se acordamos, não pode ser assim tão grave, pensei eu. Como não me mexi logo, pensei que era só uma constipação. O nariz, já não o uso desde ontem. Não faz falta, ainda bem que tenho boca, pensei eu de novo. Eu gosto de ficar a pensar na cama, mal acordo. E se acordei e consigo raciocinar, não pode ser assim tão grave, pensei eu. Porém, mal me mexi, apercebi-me que era grave. Estava num estado como se tivesse dormido numa máquina de lavar roupa toda a noite. Tonto e dorido. Se fosse mesmo verdade, ao menos estava lavado. Mas não. Ainda tinha que ir tomar banho. A dificil tarefa de tomar banho com dores no corpo. A roupa que não quer sair, e o frio que me corta a alma ás fatias, quando a roupa finalmente sai. Passaram-se vinte minutos que me pareceram duas horas. Quando, a muito custo, me sento no sofá para tirar a febre, o primeiro susto do dia. 36,5º. Como toda a gente sabe, isto não é febre nenhuma. Nem a uns míseros 37º tive direito. Conclusão: fui trabalhar na mesma. Quando resolverem ficar doentes, certifiquem-se que têm gripe. Os mimos são melhores e o termómetro deixa-vos ficar em casa. Hoje vou dormir para a varanda, a ver se a febre aparece. Não gosto das coisas pela metade, nem de trabalhar à segunda-feira.