Sep 10, 2006 4
Segundo Interrogatório

Sep 10, 2006 4

Sep 3, 2006 4
Caso do Padeiro. Suspeitos 1 e 2.
Memórias de um croissant e uma meia de leite

Era uma vez uma meia de leite, pacata, reservada, um pouco pálida também, como as restantes meias de leite da sua idade. Estava um dia solarengo, de fim de verão, enquanto o outono força a entrada e a areia da praia tenta manter-se quente a todo o custo. Restava apenas mais um croissant naquele fim de manhã que convidava a picnic. Um único croissant solitário, um francês empertigado que tratava com altivez todos os bolos da confeitaria. Nem as pessoas gostavam dele. Sorriam para todos os outros, mas torciam o nariz sempre que aquele croissant olhava de lado, do topo da sua arrogância. Portanto, limitou-se a ficar ali, seco e desgrenhado, sem que ninguém o levasse, condenado ao abandono. Pergunta o caro leitor, o que é que uma meia de leite e um croissant têm em comum. Aparentemente nada mas, naquela manhã, estavam os dois esquecidos no balcão da confeitaria. O croissant pelo seu feitio difícil, a meia de leite descriminada por ser branca, no meio de uma confeitaria cheia de cafés, cevadas e pingos. Todos castanhos, mais claros ou mais escuros, mas todos castanhos. E a meia de leite atirada para um canto, pálida como a neve, à espera de melhores dias. Porém, aquela apatia aparente tem um motivo muito sórdido e perverso, que os dois tentam esconder a todo o custo. E é pra descobrir esse motivo que aqui estamos.
Portanto, eles decidiram jogar poker, para enganar a aparente solidão. O croissant, um mestre do bluff, ficou radiante e tirou logo do bolso as pepitas de chocolate que outrora revestiram todo o seu corpo. A meia de leite não possuía nada, senão o copo de vidro imaculado e reluzente em que estava deitada. Triste como a noite, a meia de leite achou então que não tinha nada a perder e apostou o copo, porque mais vale morrer espalhada pelo balcão, do que viver uma vida miserável a ser descriminada e vaiada o resto dos seus dias. O croissant deu as cartas. Os seus olhos brilharam quando viu na mão um par de Reis e começou desde logo a imaginar-se reflectido naquele copo a observar toda a sua beleza. Por outro lado, a meia de leite não tinha nada, senão um dois e um valete para cavarem a sua sepultura. Sai um par de dois para a mesa, juntamente com outra carta que ninguém viu qual era, mais outra e ainda outra que não entram na história. A verdade é que a meia de leite tinha ganho. Então, o croissant contrariado, atirou-lhe os pedacinhos de chocolate e virou-lhe as costas, pois tinha um mau perder insuportável. De repente, a meia de leite começa a escurecer, ao inicio muito pouco mas depois cada vez mais, até que ficou da cor da canela, uniforme e sedosa. Rapidamente correu de boca em boca a novidade de que a meia de leite tinha ganho cor e todos se aproximaram para apurar a veracidade da história. Passada uma semana todos a adoravam. Nunca antes tinham visto uma meia de leite tão bela. E o croissant lá continuava, sem dar parte de fraco, na sua montra solitária a ver a vida passar. Então a meia de leite aproxima-se e dá-lhe a mão. Apresenta-o a toda a confeitaria e rapidamente todos escutam maravilhados as histórias da sua antiga casa em paris. Aquela rápida integração provocou-me um arquear da sobrancelha direita que me sugeriu que tudo aquilo não passava de uma manobra. Toda aquela aparente fragilidade não era mais do que uma estratégia para que ninguém suspeitasse de nada e não se lembrassem de os acusar nos interrogatórios, agora que eles eram tão queridos e populares na montra da confeitaria.
Esta foi a história contada pelos suspeitos 1 e 2 após o terrível e violento assassinato do pobre padeiro. Embora, aparentemente, nenhum dos dois simpatizasse um com o outro, notava-se ali uma cumplicidade de quem tem algo a esconder e não sabe como. O croissant esfregava as mãos uma na outra, como se não soubesse onde as por. A meia de leite limpava continuamente o copo, já de si imaculado, como quem disfarça um leve mau estar. Estavam os dois em frente a mim, à espera da minha próxima pergunta.
“Podem ir embora!” - disse eu - “Por hoje terminamos! Não saiam do país.”
Será o croissant o culpado? A meia de leite? Impossível de dizer para já, mas alguém matou o padeiro. A ver vamos… Não percam os próximos capítulos.
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