Suspeito do Costume

Os ecados são muitos mas eu só conto sete…

Segundo Interrogatório

Caso do Padeiro. Suspeitos 3, 4 e 5
 
Quem fica melhor por cima?
 
 
Como já certamente repararam, os sujeitos imediatamente acima são os meus próximos suspeitos. O croquete, a omelete e o arroz. Não foi fácil encontrá-los na noite portuense. O facto mais preocupante ao longo desta investigação tem sido a excentricidade com que se comportam todos os envolvidos, talvez o único factor em comum, para além de trabalharem todos na mesma confeitaria. Encontrei-os ás 5h da manhã à saída do Crystal Palace, depois de uma noite de francesinhas. Aparentemente todos se encontravam embriagados, sendo que nenhum admitiu esse facto. O croquete, o mais amigável e receptivo dos três, estendeu-me a mão como que a apalpar terreno. Eu retribui o gesto, facto que ele encarou como a deixa dele para se apresentar. Não me disse nada que eu já não soubesse, pois segui a noite toda o Audi preto em que eles se faziam transportar. Agora perguntam vocês… (e eu também me questionei a noite toda) o que fazem três empregados de uma pastelaria dentro de um Audi, a meio da semana, áquela hora da noite numa espécie de comemoração?
 
De seguida, ajeitei os óculos com o indicador esquerdo e alinhei as pestanas, coisa que os deixou desconfortáveis.
“- Onde estavam naquela noite?” Perguntei eu. A resposta não se fez tardar.
Ovos mexidos. Foi o que o padeiro pediu para jantar. O croissant sugeriu uma meia de leite para aperitivo, o que não foi bem recebido pelo padeiro, que parecia estar com pressa, segundo vim a saber mais tarde por meio do croquete. Este último é feito de farinha caseira, sujeito dos seus 64 anos, discreto… Não faz muitas perguntas e limita-se a observar o que o rodeia. Era exactamente isso que se encontrava a fazer, naquela noite fatídica para o sujeito sentado na mesa três. O croissant,  estava a servir ás mesas, coisa que nunca fez antes daquela noite, em que a broa de milho telefonou a dizer que estava doente e não podia ir trabalhar. Após quinze minutos o jantar do padeiro era servido. Omelete com arroz. O padeiro, como já era de esperar, reclamou por ter pedido ovos mexidos e à sua frente se encontrar uma omelete. O croissant apressou-se a informar que os ovos mexidos tinham acabado e aquela omelete era a única disponível áquelas horas da noite. Resignado, o padeiro olhou de lado para a omelete, partiu um pedaço e comeu ao mesmo tempo que afastava o arroz da beira da mesa. Parecia estar com pressa, e talvez por esse facto apressou-se a levantar e saiu sem pagar a conta. Apercebendo-se desse facto, o Napoleão de Chocolate que estava a tirar cafés, precipitou-se porta fora, decidido a seguir o padeiro. Foi a última vez que alguém viu qualquer um dos dois.
 
“Estão dispensados por agora. Mantenham-se contactáveis.” disse eu, de rompante. Como que acordados de um transe, todos os três se levantaram e abandonaram o meu gabinete. Ainda se ouviu pelos corredores o arroz a discutir com a omelete, sobre quem deveria ficar por cima ao jantar. O arroz está farto de ser o actor secundário, mas a omelete referiu que ninguém a comia caso esta estivesse escondida por baixo de todo aquele arroz baço, a esconder a sua beleza amarela de ovos caseiros. O croquete pôs termo à discussão, decidindo que naquela noite era ele quem ficava por cima.
 
Depois daquelas reveladoras declarações, parece-me crucial encontrar o Napoleão de Chocolate, a peça essencial para completar o puzzle. 

Primeiro Interrogatório

Caso do Padeiro. Suspeitos 1 e 2.

Memórias de um croissant e uma meia de leite

Era uma vez uma meia de leite, pacata, reservada, um pouco pálida também, como as restantes meias de leite da sua idade. Estava um dia solarengo, de fim de verão, enquanto o outono força a entrada e a areia da praia tenta manter-se quente a todo o custo. Restava apenas mais um croissant naquele fim de manhã que convidava a picnic. Um único croissant solitário, um francês empertigado que tratava com altivez todos os bolos da confeitaria. Nem as pessoas gostavam dele. Sorriam para todos os outros, mas torciam o nariz sempre que aquele croissant olhava de lado, do topo da sua arrogância. Portanto, limitou-se a ficar ali, seco e desgrenhado, sem que ninguém o levasse, condenado ao abandono. Pergunta o caro leitor, o que é que uma meia de leite e um croissant têm em comum. Aparentemente nada mas, naquela manhã, estavam os dois esquecidos no balcão da confeitaria. O croissant pelo seu feitio difícil, a meia de leite descriminada por ser branca, no meio de uma confeitaria cheia de cafés, cevadas e pingos. Todos castanhos, mais claros ou mais escuros, mas todos castanhos. E a meia de leite atirada para um canto, pálida como a neve, à espera de melhores dias. Porém, aquela apatia aparente tem um motivo muito sórdido e perverso, que os dois tentam esconder a todo o custo. E é pra descobrir esse motivo que aqui estamos.

Portanto, eles decidiram jogar poker, para enganar a aparente solidão. O croissant, um mestre do bluff, ficou radiante e tirou logo do bolso as pepitas de chocolate que outrora revestiram todo o seu corpo. A meia de leite não possuía nada, senão o copo de vidro imaculado e reluzente em que estava deitada. Triste como a noite, a meia de leite achou então que não tinha nada a perder e apostou o copo, porque mais vale morrer espalhada pelo balcão, do que viver uma vida miserável a ser descriminada e vaiada o resto dos seus dias. O croissant deu as cartas. Os seus olhos brilharam quando viu na mão um par de Reis e começou desde logo a imaginar-se reflectido naquele copo a observar toda a sua beleza. Por outro lado, a meia de leite não tinha nada, senão um dois e um valete para cavarem a sua sepultura. Sai um par de dois para a mesa, juntamente com outra carta que ninguém viu qual era, mais outra e ainda outra que não entram na história. A verdade é que a meia de leite tinha ganho. Então, o croissant contrariado, atirou-lhe os pedacinhos de chocolate e virou-lhe as costas, pois tinha um mau perder insuportável. De repente, a meia de leite começa a escurecer, ao inicio muito pouco mas depois cada vez mais, até que ficou da cor da canela, uniforme e sedosa. Rapidamente correu de boca em boca a novidade de que a meia de leite tinha ganho cor e todos se aproximaram para apurar a veracidade da história. Passada uma semana todos a adoravam. Nunca antes tinham visto uma meia de leite tão bela. E o croissant lá continuava, sem dar parte de fraco, na sua montra solitária a ver a vida passar. Então a meia de leite aproxima-se e dá-lhe a mão. Apresenta-o a toda a confeitaria e rapidamente todos escutam maravilhados as histórias da sua antiga casa em paris. Aquela rápida integração provocou-me um arquear da sobrancelha direita que me sugeriu que tudo aquilo não passava de uma manobra. Toda aquela aparente fragilidade não era mais do que uma estratégia para que ninguém suspeitasse de nada e não se lembrassem de os acusar nos interrogatórios, agora que eles eram tão queridos e populares na montra da confeitaria.

Esta foi a história contada pelos suspeitos 1 e 2 após o terrível e violento assassinato do pobre padeiro. Embora, aparentemente, nenhum dos dois simpatizasse um com o outro, notava-se ali uma cumplicidade de quem tem algo a esconder e não sabe como. O croissant esfregava as mãos uma na outra, como se não soubesse onde as por. A meia de leite limpava continuamente o copo, já de si imaculado, como quem disfarça um leve mau estar. Estavam os dois em frente a mim, à espera da minha próxima pergunta.

“Podem ir embora!” - disse eu - “Por hoje terminamos! Não saiam do país.”

Será o croissant o culpado? A meia de leite? Impossível de dizer para já, mas alguém matou o padeiro. A ver vamos… Não percam os próximos capítulos.

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