Suspeito do Costume

Os ecados são muitos mas eu só conto sete…

História das ruas

Conduzo devagar nesta noite, escura e fria como as outras, tal como me sinto por dentro. Na rádio toca a “Moonlight Shadow” do Mike Oldfield, mas esta noite não tem luar, nem nada parecido. Tem taxistas aborrecidos a dissecar a liga portuguesa de futebol desde a superliga à última divisão de futebol amador, enquanto esperam que as discotecas comecem a cuspir os primeiros excessos de uma geração ansiosa por viver depressa. Tem barulhos que ninguém sabe quem os faz. Tem semáforos vermelhos que nunca mudam de cor. Tem semáforos verdes que estão sempre vermelhos. Tem amarelos intermitentes. Tem prostitutas de cara fechada no meio da rua, a tentar perceber se um carro abrandou ou se simplesmente circula devagar, como era o meu caso. Tem tudo, mas o que tem mais, sem dúvida, são aquelas mulheres todas iguais. Os olhares são desconfiados e os cigarros fumam-se sozinhos. As roupas fora de moda tentam esconder um corpo mal despido, enquanto se arrastam em passos mal medidos entre a esquina do cruzamento e a paragem de autocarros. De quando em vez uma desaparece nas sombras do parque mal iluminado, outra é levada durante meia-hora mal medida, para depois voltar com os olhos baços e o corpo da cor do dinheiro, sempre com o mesmo cheiro. Uma mistura de tabaco e pastilha de mentol, com o perfume mais barato da drogaria.

É assim que acaba o meu dia. Somos dois dentro do carro e a noite lá fora que esconde uma rua onde ninguém passa. Amanhã a história é outra, mas hoje ainda não acabou.

Advogado do Diabo

 
 
Diabos, demónios e mafarricos,
Lá no fundo, onde o frio não chega,
Livrai-nos de todos os perigos
Que a morte, no colo, carrega.
 
Nuvens, paz e amor
Na terra não têm valor.
Em vida não nos calham em sorte,
Quanto mais depois da morte.
 
Se encontrardes Deus no corredor
Dai-lhe um recado meu.
É melhor um inferno com dor
Do que a vida que Ele nos deu.
 
Já nem o tempo temos como certo,
Tem tantas caras como as areias do deserto.
Faz mais calor num dia de Inverno,
Do que durante um ano inteiro ás portas do Inferno.
 
Aos sete anjos caídos,
Rogo o meu profundo perdão.
Depois de tantos anos vivídos,
Nunca lhes beijei a mão.
 
 

Apeteces-me

Apetece-me um copo de vinho tinto,
Abraçado a uma gota de absinto,
Para gozar com o amor,
Porque a paixão tem muito mais sabor!

Apeteces-me tu,
A dançar de corpo nu.
Partes-me o coração ao meio
Com o sabor desse teu seio.

Apetece-me gritar
E comer devagar,
Enquanto o teu beijo me acalma
As inquietudes da alma.
E quando me apetece,
Não há nada a fazer.
Bem podes fugir,
Mas não te podes esconder.

Rui Veloso

Ontem a noite calou-se para te ouvir. O Porto ameaçava chover mas aguentou-se, antes, durante e depois do concerto. Em Santa Catarina já cheirava a Natal. Mas um Natal moderno, nada como era antigamente quando eu era criança. As ruas não tinham muita gente, mas no Majestic não cabia mais ninguém. Dobrei a esquina com a rua Passos Manuel e cruzei-me com uma das cúmplices do Crime do Padre Amaro, a senhora Glória Férias disfarçada de mendiga. A rua tinha só um sentido e saíam vultos de todos os cantos e esquinas a cantar baixinho o Fado do Ladrão Enamorado. No Coliseu reinava o glamour. De todas as vezes que entro, é como se visse aquelas paredes pela primeira vez. Fui conduzido com o coração nas mãos pela escadaria que levava à minha frisa. Quarenta e cinco minutos depois ele entrou e arrancou a primeira salva da noite, de um Coliseu cheio como nos tempos d’A Brasileira. Música após música ele enchia os corações de quem o seguia com os lábios e tornava-nos a todos imensos por dentro. A cumplicidade com os outros músicos demonstrava o Homem incrível que todos acarinham em palco e fora dele. Os espaços entre as músicas era a melhor parte. Era a parte em que ele falava, e quando falava era para todos. Três horas depois, já com as mãos cor de sangue de tanto aplaudir os versos que saíam entre as cordas da guitarra, foi como se tivesse acabado de chegar. Foi então que ele sorriu. Sorriu uma e outra vez, enquanto percorreu com os olhos todas as bancadas do Coliseu. Chegou a hora da despedida do lisboeta mais portuense de Portugal, que subiu ao norte e se juntou a nós, com a pronúncia do povo mais forte, enquanto bebia do Douro aquilo que no Tejo não encontrou. Saímos de lá com vontade de correr para os bastidores e pedir só mais uma música. Aquela que ficou por tocar. Há sempre uma música que fica por tocar. Pessoas comuns, com problemas como todos nós, sorriam. Mas sorriam muito, sem esconder nenhum dente. Quando cheguei à Avenida dos Aliados, a noite tinha mudado de cor. Não foi preciso vender o meu Anel de Rubi, para ver o teu concerto até ao fim, nem tão pouco havia estrelas no céu. Estavam todas dentro do Coliseu, e saíam agora a brilhar cada vez mais. Obrigado Rui.

Fim da trilogia

Caso Resolvido  

Não foi preciso ir muito longe para encontrar o Napoleão de Chocolate.

A noite estava calma depois de um dia quente. O rádio acabava de me mudar os planos, com um acidente de última hora. E como foi oportuno esse acidente. Meia volta de pneus a chiar e um carro a desaparecer na esquina a seguir à paragem do 87. Era o mesmo Audi da noite anterior, mas a condução era diferente. Galguei os metros que nos separavam com a destreza de quem quer agrafar as folhas deste caso e ir dormir para a cama quente que tenho em casa. Ele não mostrava intenção de ceder e eu mostrava que sou mais teimoso. A luz dos faróis misturava-se com o alcatrão e os pneus patinavam em grãos de areia espalhados ao acaso por um camião mais confuso. Com a paciência a esgotar-se e as mãos a tremer de ansiedade o Napoleão de Chocolate fez uma última tentativa de me mandar para a cama mais cedo. Na entrada da curva, cortou a direito como quem vai em frente, no espaço deixado entre a árvore e a boca de incêndio. Porém, foi traído por um semáforo que não contava que um carro passasse por ali, e não se desviou, fazendo com que o Napoleão baralhasse os estofos com o motor, numa salada de metal com chocolate. Não satisfeito resolveu continuar a pé. Galgou o separador e correu, como se o amanhã fosse mentira, jardim fora. Contudo, o azar bateu-lhe à porta mais uma vez. A Bola de Berlim, a melhor amiga do Padeiro, encontrava-se por ali com um cão pela trela, a contar os espaços entre as pedras do passeio. Apercebendo-se da situação, estendeu o pé e o Napoleão de Chocolate esborrachou-se na estrada. Posteriormente foi detido e levado para interrogatório. Acabou portanto por confessar o motivo do homicídio. Dias antes o padeiro apanhou o Napoleão aos amassos com um Éclair de rua, daqueles que se comem por meio cêntimo em qualquer café de esquina. Ameaçou tirá-lo da montra devido à má imagem e aos boatos que circulavam acerca do modo leviano e burguês com que o Napoleão regia a sua vida privada. A justiça portuguesa manda que cada caso tenha um culpado, e eu acabo de encontrar o meu. Durmam bem e até amanhã.

 

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