Dec 22, 2006 7
Vida Molhada

Ontem andei à chuva de calções. Adorei a expressão na cara das pessoas da rua, perdidas nos sobretudos a espreitarem por baixo dos guarda-chuvas a pingar. Olhavam-me como se eu tivesse fugido de um hospício, mas eu só vinha do ginásio. A expressão era um misto de admiração e incredulidade. É o caminho que faço todos os dias, mas ontem toda a gente reparou em mim. O senhor da papelaria veio à porta, o senhor do talho já lá estava, a dona de casa, que voltava das compras, parou para eu passar. Para quem é normal todo o ano, soube-me bem toda aquela atenção. Os pescoços viravam-se quando eu passava, e eu fingia que não percebia. Sentia os olhos nas costas a julgarem-me, e a questionarem-se porque é que alguém, no seu perfeito juízo, andava de calções e t-shirt no meio de uma noite de tempestade. Mas a razão é tão simples como as gotas que as nuvens soltam. Sabe bem. Sabe bem ser diferente e não pensar nas consequências. Sabe bem abanar o mundo dos que nos rodeiam e mostrar-lhes que há vida para além da monotonia que os sufoca. A mesma monotonia que me sufoca o ano todo, mas ontem à noite não. Ontem à noite fui diferente e trocava dez anos da minha vida para o sentir de novo. Sabe bem gritar à janela um golo do nosso clube. Sabe bem atravessar a estrada sem pisar o branco das passadeiras. Sabe bem dar um beijo longo e molhado no autocarro e incomodar os velhotes dos lugares da frente. Sabe bem entrar numa loja de doces, roubar uma goma e fugir a correr para o banco de jardim, onde a dividimos ao meio e a partilhamos. Sabe bem passar um vermelho e ouvir os outros carros a apitar. Sabe bem contar uma piada na rua e ouvir os risos disfarçados das pessoas que passam. Sabe bem entrar numa livraria e ler um livro inteiro sem o comprar. Sabe bem ver televisão até tarde com aulas no dia seguinte. Sabe bem atirar papéis da varanda e ver as pessoas lá em baixo a olhar para nós. Sabe bem calcar o castelo de areia que tanto trabalho nos deu a construir. Sabe bem cantar no chuveiro, mesmo sabendo que temos a pior voz do mundo. Sabe bem tocar a uma campainha e escondermo-nos atrás de uma árvore para ver se vem alguém à porta. Sabe bem adormecer ao sol e acordar com a marca dos óculos na cara. Sabe bem adormecer e entrar na sala a meio da aula, com a desculpa mais esfarrapada de todas as que inventamos atrás da porta. Sabe bem encolher os ombros e entregar os minutos seguintes nas mãos de alguém. Sabe bem jogar com a vida, e parar de a controlar. É o erro que cometemos vezes sem conta. Não penses de mais. Dá-me a mão e vamos correr à chuva até termos o mundo inteiro a olhar para nós.
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