Suspeito do Costume

Os ecados são muitos mas eu só conto sete…

Vida Molhada

 

Ontem andei à chuva de calções. Adorei a expressão na cara das pessoas da rua, perdidas nos sobretudos a espreitarem por baixo dos guarda-chuvas a pingar. Olhavam-me como se eu tivesse fugido de um hospício, mas eu só vinha do ginásio. A expressão era um misto de admiração e incredulidade. É o caminho que faço todos os dias, mas ontem toda a gente reparou em mim. O senhor da papelaria veio à porta, o senhor do talho já lá estava, a dona de casa, que voltava das compras, parou para eu passar. Para quem é normal todo o ano, soube-me bem toda aquela atenção. Os pescoços viravam-se quando eu passava, e eu fingia que não percebia. Sentia os olhos nas costas a julgarem-me, e a questionarem-se porque é que alguém, no seu perfeito juízo, andava de calções e t-shirt no meio de uma noite de tempestade. Mas a razão é tão simples como as gotas que as nuvens soltam. Sabe bem. Sabe bem ser diferente e não pensar nas consequências. Sabe bem abanar o mundo dos que nos rodeiam e mostrar-lhes que há vida para além da monotonia que os sufoca. A mesma monotonia que me sufoca o ano todo, mas ontem à noite não. Ontem à noite fui diferente e trocava dez anos da minha vida para o sentir de novo. Sabe bem gritar à janela um golo do nosso clube. Sabe bem atravessar a estrada sem pisar o branco das passadeiras. Sabe bem dar um beijo longo e molhado no autocarro e incomodar os velhotes dos lugares da frente. Sabe bem entrar numa loja de doces, roubar uma goma e fugir a correr para o banco de jardim, onde a dividimos ao meio e a partilhamos. Sabe bem passar um vermelho e ouvir os outros carros a apitar. Sabe bem contar uma piada na rua e ouvir os risos disfarçados das pessoas que passam. Sabe bem entrar numa livraria e ler um livro inteiro sem o comprar. Sabe bem ver televisão até tarde com aulas no dia seguinte. Sabe bem atirar papéis da varanda e ver as pessoas lá em baixo a olhar para nós. Sabe bem calcar o castelo de areia que tanto trabalho nos deu a construir. Sabe bem cantar no chuveiro, mesmo sabendo que temos a pior voz do mundo. Sabe bem tocar a uma campainha e escondermo-nos atrás de uma árvore para ver se vem alguém à porta. Sabe bem adormecer ao sol e acordar com a marca dos óculos na cara. Sabe bem adormecer e entrar na sala a meio da aula, com a desculpa mais esfarrapada de todas as que inventamos atrás da porta. Sabe bem encolher os ombros e entregar os minutos seguintes nas mãos de alguém. Sabe bem jogar com a vida, e parar de a controlar. É o erro que cometemos vezes sem conta. Não penses de mais. Dá-me a mão e vamos correr à chuva até termos o mundo inteiro a olhar para nós.

Poker

Eu gosto do coração a correr depressa. Gosto de me sentir vivo e de o sentir a ele a saltar no peito. Gosto quando ele se espreme para me acompanhar, e quando se deita no colo dos pulmões, com o orgulho de quem me consegue manter vivo. E não há altura em que ele corra tão depressa, como numa mesa de poker. Os baralhos baralham-me as contas, as probabilidades sobem e as apostam aceleram o ritmo cardíaco. Os meus nervos são de paus, e as mãos ligeiras como espadas. Jogo com as probabilidades e com as reacções dos meus adversários. Nada pode ser deixado ao acaso porque há sempre quem se aproveite de um deslize, de uma gota de suor que a testa soltou, ou de um tremor nas mãos mal disfarçado. Straight Flush de ouros, fico por aqui. O cheiro bom que fica no ar depois de limparmos todas as fichas sobre a mesa, entranha-se e estica-nos a boca num sorriso. Depois disso vem a pausa, como um cigarro depois do sexo. O sabor da vitória nos lábios vicia como qualquer outra droga. Vendem-se cápsulas de adrenalina, nas mesas dos casinos. Há quem a procure a saltar de pontes ou de aviões. Mas o poker tem as pontes, tem os aviões, tem os carros, tudo distribuído por quatro naipes, dois pretos, dois vermelhos. Cada aposta é um salto, cada ficha uma cápsula que nos mantém vivos. Mas esta noite chega. “A good poker player, always know when to fold” e agora é a minha vez de sair. $1000 para o dealer. Sinto as chaves do quarto no bolso do smoking. Pago a conta do bar na minha última noite no Palms. As luzes da Strip não deixam Vegas adormecer, e a mim também não. Empurrei a porta encostada e percebi que ainda me esperas, aliás, como sempre fazes em noite de jogo. Se eu penduro a gravata na cadeira da entrada, já sabes que a noite sorriu para mim e que vou atrasar o amanhecer o mais que puder, para te sentires desejada e calares as fantasias de uma noite mal dormida. Estás deitada na cama à minha espera… Procuro o teu cheiro nos lençóis, porque nenhum jogador de poker dorme sozinho em Las Vegas. A noite é tua, enquanto as luzes não se apagarem…

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