Suspeito do Costume

Os ecados são muitos mas eu só conto sete…

Eu

Sou um projecto inacabado de mim próprio. Uma vez disseram-me que todos nós somos alguma coisa e que somos importantes para alguém. Mas eu tenho a certeza que não sou nada. Quero ser tudo, mil e um sonhos e projectos por cumprir, mas ou me sento a um canto à espera que o mundo construa aquilo que só eu posso erguer, ou faço tudo ao mesmo tempo e acabo por não terminar nada. Ás vezes só quero ter alguma coisa que dependa do meu suor e dedicação. Outras vezes quero o mundo todo debaixo do braço direito, para ficar com o esquerdo livre para conquistar outro. Sou inconstante, incompreendido, rejeito tudo e todos que não se enquadrem nos meus padrões de perfeição e acabo o dia sozinho como sempre estive. O pior de tudo é que gosto de estar sozinho, habituei-me. Rejeito tudo que me tire esta calma e serenidade aparente, que encobre o vazio que me preenche desde o pescoço até à ponta dos pés. Só a cabeça fica livre para os sonhos. Mas nem os sonhos me salvam, porque eu não quero ser salvo. Quero beber deste marasmo até ao fim, bater com a garrafa na mesa e pedir outra, até terem de me arrastar até à cama. Quero ter tudo sob controlo e não entendo que há coisas que não dependem de mim. Não tenho sorte, colho os frutos do meu esforço, que a maior parte das vezes não é o que devia, mas quase sempre é suficiente. Sou insatisfeito, quero sempre mais de mim e dos outros, e acabo por fazer tudo sozinho, porque não confio em ninguém. Se me desiludem, perco o interesse e não reconsidero. Sou arrogante, sarcástico e trago na boca o sabor amargo da solidão, como faço com o chocolate dos bolos. Saboreio uma e outra vez sem engolir, porque se há coisa que não se consegue engolir é a solidão. Consome-me a alegria de viver até acabar, e quando acaba consome a dos outros à minha volta. Quando já não há ninguém à minha volta, revolta-se e dá lugar ao desespero. Mas o desespero não se contenta com a alegria de viver. Alimenta-se de sonhos, e isso eu tenho muitos. Os sonhos nunca acabam e o desespero também não, porque quanto mais eu sonho, mais o alimento. Quando deixo de sonhar, o desespero toma conta de mim, dos meus vícios, da minha vontade, não me deixa acordar de manhã, nem adormecer à noite. Então, não tenho alternativa senão sonhar de novo e condenar-me a este ciclo vicioso de sonhos inacabados, enquanto espero que o mundo me diga o que quer de mim.

Preto

Caio pesado na cama, como um prédio demolido, de fora para dentro. Tudo tem acontecido assim, de fora, para dentro. Guardo tudo o que vem de fora e acumulo cá dentro. Quando a cabeça está cheia, acumulo no peito. Quando o peito está cheio, acumulo no primeiro cantinho que encontrar… Atrás do coração, debaixo do estômago… Mas agora só amasso o colchão do meio para baixo, porque o peito está vazio.

Sinto-me mole e sem forças. Abro os olhos mas é como se eles continuassem fechados. O preto não é uma cor, é só o que resta quando a luz não reflecte coisa alguma. Hoje foi tudo o que restou. Aquele imenso preto noite a entrar-me nos poros e a criar raízes. Deixei-me ficar com os olhos na porta. Toda a gente passava e ninguém dava por mim. A melhor maneira de nos escondermos é à vista de todos. Até que, quase uma hora depois, deram pela minha falta. Chamaram por mim mas eu não respondi. Joguei o jogo que jogava quando era criança. Escondia-me no lugar mais escuro que encontrasse e deixava-me ficar. Contava o tempo que as pessoas demoravam a sentir a minha falta e avaliava com base nisso quem gostava mais de mim. Começavam a chamar por mim, mas eu ficava bastante tempo sem responder, até todos terem procurado pela casa inteira. Só aí, é que eu me mostrava. Repetiam-me vezes sem conta que já não tinha piada, mas eu não os ouvia. Só me interessava o tempo que demoraram a encontrar-me. É esse tempo que temos de esperar para existir, porque se ninguém der pela nossa falta, não conseguimos existir sozinhos. O problema agora é que já não sou mais criança, e há poucos lugares escuros para me esconder. Por vezes, nenhum lugar é escuro o suficiente…

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