Jan 31, 2007 9
Eu

Sou um projecto inacabado de mim próprio. Uma vez disseram-me que todos nós somos alguma coisa e que somos importantes para alguém. Mas eu tenho a certeza que não sou nada. Quero ser tudo, mil e um sonhos e projectos por cumprir, mas ou me sento a um canto à espera que o mundo construa aquilo que só eu posso erguer, ou faço tudo ao mesmo tempo e acabo por não terminar nada. Ás vezes só quero ter alguma coisa que dependa do meu suor e dedicação. Outras vezes quero o mundo todo debaixo do braço direito, para ficar com o esquerdo livre para conquistar outro. Sou inconstante, incompreendido, rejeito tudo e todos que não se enquadrem nos meus padrões de perfeição e acabo o dia sozinho como sempre estive. O pior de tudo é que gosto de estar sozinho, habituei-me. Rejeito tudo que me tire esta calma e serenidade aparente, que encobre o vazio que me preenche desde o pescoço até à ponta dos pés. Só a cabeça fica livre para os sonhos. Mas nem os sonhos me salvam, porque eu não quero ser salvo. Quero beber deste marasmo até ao fim, bater com a garrafa na mesa e pedir outra, até terem de me arrastar até à cama. Quero ter tudo sob controlo e não entendo que há coisas que não dependem de mim. Não tenho sorte, colho os frutos do meu esforço, que a maior parte das vezes não é o que devia, mas quase sempre é suficiente. Sou insatisfeito, quero sempre mais de mim e dos outros, e acabo por fazer tudo sozinho, porque não confio em ninguém. Se me desiludem, perco o interesse e não reconsidero. Sou arrogante, sarcástico e trago na boca o sabor amargo da solidão, como faço com o chocolate dos bolos. Saboreio uma e outra vez sem engolir, porque se há coisa que não se consegue engolir é a solidão. Consome-me a alegria de viver até acabar, e quando acaba consome a dos outros à minha volta. Quando já não há ninguém à minha volta, revolta-se e dá lugar ao desespero. Mas o desespero não se contenta com a alegria de viver. Alimenta-se de sonhos, e isso eu tenho muitos. Os sonhos nunca acabam e o desespero também não, porque quanto mais eu sonho, mais o alimento. Quando deixo de sonhar, o desespero toma conta de mim, dos meus vícios, da minha vontade, não me deixa acordar de manhã, nem adormecer à noite. Então, não tenho alternativa senão sonhar de novo e condenar-me a este ciclo vicioso de sonhos inacabados, enquanto espero que o mundo me diga o que quer de mim.

Recent Comments