Meti as chaves na porta, mas elas não rodavam. Pela primeira vez desde que ela se mudou, as chaves não me queriam deixar entrar em casa. Até as chaves se apercebiam do que se passava… Eu não. Mais valia ter-lhes dado ouvidos. Pela porta entreaberta vi as malas ao lado da mesa do telefone. Entrei devagar, pé ante pé, como fazia quando tinha 6 anos de manhã bem cedo, para os meus pais não se aperceberem que eu ia ver os desenhos animados. Encontrei-a no quarto a fazer a cama. Como já esperava, ela não me ouviu entrar e ficou surpreendida por eu ter voltado tão cedo.
- Vais-te embora?
- Pensei que ias demorar mais tempo…
- Eu também pensei o mesmo quando te convidei para viveres comigo… Que ias demorar mais tempo…
- Nunca te prometi nada… - disse ela, sem me olhar nos olhos.
- Eu não quero promessas, só te quero a ti.
- Neste momento não te posso dar mais que isto…
Neste momento ela não me pode dar mais do que um abraço, duas malas feitas à minha porta, e longas noites mal dormidas com os mesmos sonhos, até se tornarem pesadelos. Neste momento eu precisava de tudo dela. A casa de um homem é como um castelo. Assim que abrimos a porta a alguém e a convidamos a entrar, ficamos indefesos. Eu baixei a minha guarda e fiz a cama com os lençóis que ela gostava mais. A mesma cama que ela acaba de fazer com os meus velhos lençóis, para que eu não me lembre dela. Do quarto, ainda a consegui ver a pegar nas malas, para sair sem olhar para trás. Antes de me sentar no sofá, corri para a porta e tranquei o castelo. Ás vezes é bom não conseguirmos o que queremos… Nunca se sabe se algo mais importante está por aí à espera de ser encontrado… E eu não me levanto mais deste sofá até me encontrarem.
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