Suspeito do Costume

Os ecados são muitos mas eu só conto sete…

Time Out

Meti as chaves na porta, mas elas não rodavam. Pela primeira vez desde que ela se mudou, as chaves não me queriam deixar entrar em casa. Até as chaves se apercebiam do que se passava… Eu não. Mais valia ter-lhes dado ouvidos. Pela porta entreaberta vi as malas ao lado da mesa do telefone. Entrei devagar, pé ante pé, como fazia quando tinha 6 anos de manhã bem cedo, para os meus pais não se aperceberem que eu ia ver os desenhos animados. Encontrei-a no quarto a fazer a cama. Como já esperava, ela não me ouviu entrar e ficou surpreendida por eu ter voltado tão cedo.

- Vais-te embora?
- Pensei que ias demorar mais tempo…
- Eu também pensei o mesmo quando te convidei para viveres comigo… Que ias demorar mais tempo…
- Nunca te prometi nada… - disse ela, sem me olhar nos olhos.
- Eu não quero promessas, só te quero a ti.
- Neste momento não te posso dar mais que isto…
Neste momento ela não me pode dar mais do que um abraço, duas malas feitas à minha porta, e longas noites mal dormidas com os mesmos sonhos, até se tornarem pesadelos. Neste momento eu precisava de tudo dela. A casa de um homem é como um castelo. Assim que abrimos a porta a alguém e a convidamos a entrar, ficamos indefesos. Eu baixei a minha guarda e fiz a cama com os lençóis que ela gostava mais. A mesma cama que ela acaba de fazer com os meus velhos lençóis, para que eu não me lembre dela. Do quarto, ainda a consegui ver a pegar nas malas, para sair sem olhar para trás. Antes de me sentar no sofá, corri para a porta e tranquei o castelo. Ás vezes é bom não conseguirmos o que queremos… Nunca se sabe se algo mais importante está por aí à espera de ser encontrado… E eu não me levanto mais deste sofá até me encontrarem.

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9 Responses

  1. Raquel says:

    Os castelos dos homens são assim mesmo… feitos para serem conquistados por hábeis e persistentes lutadoras, para serem tomados e invadidos pelas emoções imensas que o “baixar a guarda” trazem para a vida…
    Nem sempre o impeto com que o conquistaram perdura pelos tempos, tal como pedras dos castelos milenares que insistem suster-se ante batalhas, chuvas, erosão… para nos lembrar da preserverança que lhes permitiu resitir às eras.
    Que o castelo se mantenha fiel ao seu propósito… defender-se dos perigos inimigos mas que possa “baixar a guarda” novamente, assim que uma nova lutadora dele se abeire e dele faça o seu objectivo de vida, a sua força, a sua coragem e determinação…

    Parabéns pelo blog, revelador da sensibilidade mais intrinseca e de quem tem coragem de a deitar cá para fora…

  2. LovelyMissD says:

    Nada que eu posso dizer te vai pôr bem disposto…

    Adorei a metáfora dos lençóis e olha, força!

    Um beijinho muito grande.

  3. Nilza says:

    “Ás vezes é bom não conseguirmos o que queremos…” Td tem o seu tempo meu amigo…tudo!
    O teu há-de chegar!;)
    Repito o q um dia destes disse a um outro amigo meu, “Todas as pessoas q passam pela nossa vida são especiais, tds deixam uma marca na nossa vida…” :)

    Bejim *

  4. herbivora says:

    uau, esse foi bem profundo…
    bem pensa q foi bom enquanto durou, e segue em frente, eu sei é fácil falar, mas assério pra frente é o caminho.
    kisses ***

  5. (Menina do) Mar says:

    Gosto das tuas palavras, não gosto do que estás a sentir.
    Aguentas ficar sentado no teu sofá por mais 10 anos? :)
    B*

  6. Sandeman says:

    My man*
    Homem que é homem não baixa a guarda, ou quando baixa não se dá conta… digamos que os homens também se precipitam… Parece-me que a chave estava a precisar de vaselina.. Parece-me.. :o) dizem por aí que rodava logo!! E os lençóis… ela não podia ter feito tal… Anyway.. se é real o que sentes, fica um abraço.. senão, o apreço por mais um agradável momento de leitura e fantasia até para quem não gosta de ler (eu… )..
    Ahh.. Ya.. agora estou a estudar :( :o) na Maia, essa bela localidade, ou não.. ups.. precipitei-me.. não não tipo chuva (precipitação)… bye*

    Cocas*

  7. Gi says:

    E quando passamos anos sem dar oportunidade a alguem? …é preciso parar, sentarmo-nos no sofá e esperar? Mesmo sabendo que isso nos faz sofrer tanto e repensar vezes sem conta nas coisas das quais já há muito que deviamos ter sido esquecido…

    parabens, este “desabafo” está lindo…

  8. Pequenina says:

    Não vou tirar-te desse sofá, não é essa a minha intenção. Mas encontrei-te. E agora que te encontrei vou sentar-me nesse sofá contigo. Vou trazer um cobertor, porque te vejo tremer, vou descalçar-me e vou enroscar-me em ti. E vamos ficar aqui os dois, em silêncio, até que tudo em nós esteja em paz. Nessa altura vou olhar-te nos olhos e esperar ler neles aquilo que nos espera dali por diante…

  9. Tânia says:

    Adorei este…

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