Suspeito do Costume

Os ecados são muitos mas eu só conto sete…

Teoria do Caos

Pequenas causas provocam grandes efeitos. O bater de asas de uma borboleta na austrália pode causar um tornado no texas. Um bloco de gelo que se solta na Antárctida pode provocar um maremoto na Índia. Uma palavra que saia da tua boca pode virar o meu mundo ao contrário, assim como a palavra seguinte o pode voltar a por no lugar. É esta teoria do caos que faz da felicidade um mito. A “insustentável leveza” do ser humano impede-nos de nos sentirmos felizes para além de um curto espaço de tempo. Umas vezes dura uma hora, outras um dia, outras uma semana, mas de repente uma borboleta bate as asas e a tempestade abate-se na nossa cabeça, senão o Texas já não existia. Ontem a minha cabeça estava cheia de borboletas, e o estômago também. Hoje voaram todas para longe e deixaram a tempestade para trás. É esta constante alteração de vontades que faz com que o coração bata de novo, uma e outra vez, enquanto a Terra gira sempre no mesmo sentido, como se não fosse nada com ela.
Tens razão. Escrito parece tudo mais fácil, mas as fantasias são mais do que simples palavras. Quando a fantasia é sozinha, não se consegue materializar. Vagueia entre o estômago e o quinto andar do cérebro, sem nada que a faça parar. Mas quando é partilhada, ganha forma, ganha nome e sai cá de dentro. Eu queria que o teu encanto fosse do meu tamanho, mas afinal foi só do tamanho do meu pé. Quero mais, quero menos, quero tudo e não quero nada. Quero prender-te sem cordas. Quero o meu abraço sem to pedir. Quero escrever-te, mas para isso preciso de te sentir. Porém, antes de tudo, preciso de encontrar um heterónimo, porque as minhas palavras já não cabem em mim. A realidade é mais assustadora e eu sou bem mais pequeno que o mundo lá fora.
 
“- Que cara é essa?” 
“- Não é nada, tou só cansado.”
 
Às vezes precisamos de ajuda e não a pedimos.

Até já

“- Deixem o vosso pai que ele tem de ir trabalhar!”, disseste tu enquanto as miudas continuavam penduradas no meu pescoço. Eu acho que estás com ”ciúmes”. Antes não dividias a minha atenção. Agora, são quatro as mulheres da minha vida. Sempre tiveste medo que eu saísse sem me despedir de ti, embora eu nunca o tenha feito. Não tenhas medo. Eu consigo sobreviver a filas intermináveis, ao excesso de semáforos, à falta de lugar para estacionar, ao excesso de carros na rua, ao preço da gasolina, ao horário para entrar, à falta de horário para sair, ao excesso de trabalho, à falta dele, ao turno da noite, às más disposições, à falta de dinheiro no multibanco, à publicidade na rádio, aos dias cinzentos, ás noites mal dormidas, ao cansaço, ao excesso de energia, ao barulho do vizinho de cima, ao carro que teima em não pegar… Mas não durava cinco minutos sem o teu beijo antes de tudo isto. Por isso, por mais tempo que as miudas demorem, o último beijo vai ser sempre teu.

“- Agora deixa-me ir, já estou mesmo atrasado. Eu prometo que ligo na hora do almoço.”

Enquanto meto as chaves no carro olho para trás, como faço todos os dias. Estás tu de pé, no centro da porta, e elas agarradas à tua saia. Estão as quatro amuadas, mas tu disfarças melhor. É esta imagem que me faz continuar, não vos posso desiludir.

Até já.

Afinal esqueci-me das chaves de casa… Não vos quero acordar quando voltar, tenho de as ir buscar. Há tempo para mais um beijinho.

Há sempre tempo para mais um beijinho…

Bolachas com doce

Estava aqui a olhar para a folha em branco, mas não sei o que escrever. Sabes… estou com um daqueles, como se chamam… bloqueios! Sei que quero mas não sei sobre quê! Sinto-me como tu naquele dia, lembraste? Quando querias chegar aquela prateleira, onde guardaste o doce das bolachas, e não conseguias? E depois quando eu o fui buscar, vieste de novo ter comigo para o abrir porque tinha feito vácuo? Parece que há sempre alguém mais forte que nós para nos facilitar a vida, para nos dar segurança… Alguém com mais isto ou aquilo! Se calhar não me devias ter chamado. Quando não conseguias chegar ao armário, pegavas num banco e subias para cima da mesa. Quando não conseguias abrir o frasco, derretias a tampa, partias o vidro, fazias força, uma e outra vez até ela ceder. Talvez todos devêssemos lutar pelas coisas que queremos muito. E eu que queria tanto conseguir escrever. Mas parece que quando não estás em casa eu não consigo. Sim, eu sei que não escreves por mim. Mas vejo-te passar aqui na porta do escritório, quando vais à estante arrumar os teus livros, e ficas às vezes dez minutos, que eu conto pelo relógio, só a olhar para eles. E eu a olhar para ti. Como eu gosto de olhar para ti… inspiras-me e expiras-me. Dá-me segurança para escrever mais uma linha. Sabes, não é aquela segurança de parar de escrever, como quem se acomoda com o que não queria, mas que talvez seja melhor assim. Talvez o texto não mereça mais. Talvez o leitor não mereça mais. Talvez EU não mereça mais. Não! Esta é a segurança que me faz apagar a linha anterior para escrever uma melhor. Sim, porque a linha seguinte vai ser sobre ti, e tem de ficar perfeita. Não procures o que eu escrevo em mais lado nenhum, porque aquilo que sinto eu escrevo aqui. Sentas-te comigo só hoje? Traz as bolachas, hoje abres tu o frasco do doce.

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