Suspeito do Costume

Os ecados são muitos mas eu só conto sete…

Chocolate com Batatas

Olá Daniela Feliz, daqui fala o João Luís! Como tem passado?
Sim, o tempo está enublado. Vamos tomar café? Sim, eu sei que não gostas e eu também não, mas, porque não? Vamos fingir que somos vizinhos. Eu sei que não gostas de fingir, mas só um bocadinho não faz mal. Os nossos vícios fazem pior. Dois dedos chegam para os contar. Um chocolate e uma batata frita fazem-nos suspirar. Vamos então ser vizinhos! Não precisamos de muito, só de um lugar abrigado. Só tenho de ser o teu vizinho de frente, e tu a vizinha do lado. Está bem eu páro de fingir, não somos vizinhos, nem tão pouco da mesma cidade, mas o que eu adoro em ti é a tua afinidade, com a mui nobre e invicta bondade que nos permitiu aproximar e tomar este café sedutor, para nunca deixar o destino levar a melhor.

História do menino que queria ser um Ás de Copas

 

 
Esta é a história do menino que queria ser um Ás de Copas. O menino não gostava de ser menino, porque não era feliz, num mundo em que toda a gente jogava ás cartas. Diziam que o menino não jogava com o baralho todo, por causa da sua adoração pelos ases, em especial pelo de copas. Em todos os jogos em que entrava, ele roubava todos os ases do baralho. De seguida, rasgava todos e deixava apenas o Ás de Copas. Ninguém gostava do menino por ele não saber jogar. O menino via a cara de felicidade de toda a gente quando o baralho lhes dava um ás, em especial se fosse de copas. O menino só queria que alguém ficasse assim tão feliz quando olhasse para ele, como quando olham para um Ás de Copas. Em pouco tempo não haviam mais ases no mundo e toda a gente deixou de jogar. O menino pensava que assim que ele tivesse todos os Ases, as pessoas iam ficar felizes quando olhassem para ele, pois ele representaria toda a felicidade do mundo das cartas. Mas não, porque com a ânsia do menino querer ser feliz, nunca mais ninguém jogou ás cartas, no mundo em que toda a gente jogava ás cartas. Perante isto, o menino desejou nunca ter roubado a felicidade, em vez de a conquistar. Ficou furioso e passou toda a noite a baralhar-se no meio de todos aqueles ases, até ao ponto em que deixou de se ver o menino no meio de tantas cartas.
Até hoje, ninguém sabe o que lhe aconteceu, mas sempre que no mundo das cartas, sai o Ás de Copas, toda a gente se lembra do menino e acredita que ele estará dentro do coração de um daqueles ases, feliz por trazer a felicidade ao jogo.

Doente

 

Ontem acordei. É bom sinal, acordar. E se acordamos, não pode ser assim tão grave, pensei eu. Como não me mexi logo, pensei que era só uma constipação. O nariz, já não o uso desde ontem. Não faz falta, ainda bem que tenho boca, pensei eu de novo. Eu gosto de ficar a pensar na cama, mal acordo. E se acordei e consigo raciocinar, não pode ser assim tão grave, pensei eu. Porém, mal me mexi, apercebi-me que era grave. Estava num estado como se tivesse dormido numa máquina de lavar roupa toda a noite. Tonto e dorido. Se fosse mesmo verdade, ao menos estava lavado. Mas não. Ainda tinha que ir tomar banho. A dificil tarefa de tomar banho com dores no corpo. A roupa que não quer sair, e o frio que me corta a alma ás fatias, quando a roupa finalmente sai. Passaram-se vinte minutos que me pareceram duas horas. Quando, a muito custo, me sento no sofá para tirar a febre, o primeiro susto do dia. 36,5º. Como toda a gente sabe, isto não é febre nenhuma. Nem a uns míseros 37º tive direito. Conclusão: fui trabalhar na mesma. Quando resolverem ficar doentes, certifiquem-se que têm gripe. Os mimos são melhores e o termómetro deixa-vos ficar em casa. Hoje vou dormir para a varanda, a ver se a febre aparece. Não gosto das coisas pela metade, nem de trabalhar à segunda-feira. 

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