Suspeito do Costume

Os ecados são muitos mas eu só conto sete…

No meu tempo

Eu sou do tempo em que as rosas tinham cheiro e os trevos, quatro folhas. Quando eu nasci, os meus pais não sabiam o meu sexo e usava fraldas de pano. Cresci na rua, com as mãos cheias de terra e os joelhos com nódoas negras. Quando queria falar com os meus amigos berrava-lhes da janela da minha casa, ou esperava que eles chegassem à escola, no dia seguinte. Nas aulas, o professor sabia mais do que eu, e isso não era problema para mim. Aprendi a tabuada e a calcular a raiz quadrada num papel. No meu tempo, tinha uma semanada de 500 escudos que durava até ás gomas de sexta-feira e estava longe de imaginar que ia passar a vida a dividir Euros por dois. Existiam drogarias, mercearias e vendedores ambulantes que tinham na sua caixa todos os cromos que faltavam nas minhas cadernetas. Escreviam-se cartas de amor e as meninas não diziam que sim à primeira. No meu tempo, o Verão durava três meses, estava Sol todos os dias e não se podia levar pipocas para o cinema. O ano tinha quatro estações e eu sabia quando tinha de vestir um casaco ou usar uma t-shirt. No meu tempo, tudo o que eu sabia das raparigas era que não serviam para jogar à bola nem gostavam de andar à porrada. Todos os dias me deitava ás 22h e aos fins-de-semana levantava-me ás 6h da manhã, para ver os desenhos animados que duravam até ás 13h. Ainda sou do tempo em que os presentes de Natal só se abriam no dia 25 de manhã e em que o Pai Natal era vermelho. Ia à catequese ao sábado de tarde e à missa ao domingo de manhã, embora não gostasse muito. Cresci sem saber o que é um telemóvel, um Big Mac, um shopping, um computador e a Internet.

O que é que fizeram ao mundo nos últimos 10 anos?

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